Dia do Sexo

Por Francisco Maiochi | September 10, 2019

Aceitação não é pela metade

Na última sexta-feira, dia 69, foi comemorado o dia do sexo. Uma data para nos lembrar desse aspecto da vida que pode nos trazer tanta alegria, satisfação, conexão. Infelizmente, o final de semana que seguiu foi marcado por uma polêmica infeliz sobre sexualidade, com a tentativa de apreensão e categorização como pornográfica de uma revista em quadrinho d’Os Vingadores que em suas páginas continha um beijo de dois heróis, namorados. Os detalhes sobre essa censura ainda correm na justiça.

Um amigo bastante religioso compartilhou comigo a notícia, e refletiu que embora não fosse contrário ao tratamento igual de gays e heteros, existiria uma linha que dividiria a aceitação do incentivo, e me questionou sobre como eu me posiciono em relação a isto, e compartilho aqui minha resposta com vocês.

Primeiramente, não é errado incentivar alguém a algo que em si não é errado. Digamos, incentivar um jovem a ser advogado, ou engenheiro, designer, psicólogo, professor. Todas profissões dignas, e incentivar qualquer pessoa a praticá-las não é errado em si só. Incentivar alguém a uma profissão específica só se torna errado quando se tentar forçar alguém a escolher uma profissão que não quer, e da mesma forma se dá com a orientação sexual.

Em segundo lugar, não poderíamos considerar como imposição quando alguém diz a um jovem algo como “engenheiro existem, sabe? Eles fazem muitos cálculos e projetam coisas, e se você algum dia quiser ser engenheiro, precisa entrar numa faculdade de engenharia, ok?”. Da mesma forma, não diríamos que um livro que tem como protagonista um engenheiro, ou que tem personagens médicos, estão incentivando os leitores a assumirem estas profissões. Mostrar que diferentes profissões existem, que são possibilidades que podem ou não ocorrer, dependendo da vontade de cada um, isso não força ninguém a ser qualquer coisa. Da mesma forma, todas as orientações sexuais são igualmente válidas, afinal, dizem respeito apenas a quem uma pessoa ama e deseja, e isso é um assunto particular destas envolvidas. Demonstrar que pessoas de todas as orientações sexuais existem não é uma forma de incentivo, muito menos de coação.

Em terceiro lugar, imagine crescer numa família onde desde pequeno você é criado tendo em mente que a única profissão possível é ser advogado. Mas desde pequeno você se dá conta que não gosta muito de ler, mas gosta muito de cálculos. Ainda assim, não sabe que existem engenheiros, nem matemáticos, físicos, ou sequer arquitetos. Ninguém nunca lhe disse que você podia ser qualquer coisa senão um advogado. Alguém assim pode crescer achando que está condenado a ser um péssimo profissional, já que não gosta do que vai ter que fazer, e terá que trabalhar com algo que desgosta pela vida toda. E crescendo se dá conta que existem sim outras profissões, e mais ainda, que sua família escondeu isto de você deliberadamente, se esforçou para que você nunca visse que poderia ser qualquer outra coisa. É essa a experiência de crescer em uma casa que esconde essa opção. Caso essa criança quisesse ser advogada mesmo, talvez nem notasse que existiu um problema, talvez pensasse que quem defende que crianças deveriam crescer conhecendo diferentes opções de profissão como exagerados, que para ele mesmo nunca foi um problema ter uma só. Mas para quem não queria ser advogado, essa experiência foi de coação, de forçar, de limitar. Da mesma forma é com a orientação sexual, seja ela qual for. Crescer tendo essa opção deliberadamente escondida ou mal falada, condenada, é uma experiência de forçar a uma coisa, impossibilitando as outras, de coação.

Dizer que aceita, mas não quer incentivar é algo que revela uma desvalorização desta diferença. Que muita gente ainda vê a aceitação de pessoas LGBT como um tipo de deficiência ou falha. Algo que você até aprende a aceitar, mas não gostaria que ninguém fosse. Que a ideia de ter mais pessoas assim, abertamente, no mundo, é ruim. Talvez que essas pessoas até possam ter sua “deficiência”, mas que talvez não precisassem ficar mostrando isso para os outros (e é interessante essa comparação, porque também é assim que muita gente faz pessoas com deficiência se sentirem, com vergonha de sair na rua, no shopping…). E isso não é aceitação. Isso é julgamento. Um julgamento sobre amor, condenando pessoas que se amam, e que no fim acaba desejando que elas tivessem vidas infelizes, ocultas, falsas, e que propaga aí sim, uma tentativa de influenciar e coagir crianças e adultos a não serem quem desejam ser.

Não mostrar que pessoas LGBT existem, isso sim é que é um “incentivo” forçado, que limita escolhas e vidas, que impede que pessoas se sintam confortáveis consigo mesmas, que fratura famílias ao forçar filhos para fora dos seus lares.

Uma atitude de amor real, de aceitação real, é sempre a melhor opção. Que acolhe a alegria e tenta proteger da tristeza, e que celebra a felicidade de quem a gente ama.

Sobre o Autor

Francisco Hertel Maiochi é psicólogo e Mestre em Sexologia no Espaço Ciclos

CRP 12-10098