os jovens de hoje em dia não são mais como antigamente?

Por Francisco Maiochi | March 28, 2019

Todo mundo acha que a próxima geração está perdida…

De uns tempos pra cá, se fez muita confusão na esfera pública sobre gênero, orientação sexual, identidades. É compreensível que a gente não entenda uma série de mudanças que parecem acontecer com o mundo. As coisas não são mais como antigamente, não é? As roupas não são as mesmas, nem os carros. A comunicação é instantânea, quando antes levava horas, dias, meses. Ainda assim, nos adaptamos aos tempos, especialmente quando as mudanças nos convêm, atendem aos nossos desejos. Ainda assim, todos conhecemos aquele parente mais velho que talvez ainda resista ao celular ou ao Netflix, preferindo o velho telefone e a TV aberta, por exemplo. Lidar com mudanças pode ser difícil quando parecem fora do nosso alcance de compreensão. Já diziam na Grécia antiga que “os jovens de hoje em dia não são mais como antigamente”. É um sentimento que já perdura milênios, mas se formos analisar, não acredito que a primeira geração de humanos foi a melhor, e viemos numa ladeira abaixo desde então, não é?

Algumas pessoas imaginam que pessoas homossexuais, bissexuais, transsexuais, não existiam no passado. Certamente elas não se chamavam por estas palavras, não se identificavam assim, mas as atrações, os afetos, as relações, certamente essas existiam, tanto quanto existem hoje. A diferença era a repressão, a ameaça constante de punição pelo povo, por uma crença que tais desejos, afetos, relações eram ruins, malignas, pecaminosas, ou o que quer que fosse que justificasse cometer violência contra alguém por amar outro alguém. Os desejos eram reprimidos, escondidos, num processo que causava enorme sofrimento a troco de nada.

Em tempos mais recentes, essa ameaça de punição começou a diminuir, e muitas pessoas puderam finalmente surgir abertamente perante a sociedade. As primeiras pessoas que fizeram isso tiveram que ser muito corajosas. Enfrentaram ser expulsas de casa por pais e familiares, muitas ainda adolescentes, tendo que se virar nas ruas (ainda hoje, mesmo em países desenvolvidos como os Estados Unidos, boa parte dos moradores de rua foram adolescentes expulsos pelos próprios pais). Enfrentaram abusos por parte de autoridades, muitas agressões e violência por completos desconhecidos, para abrir esse caminho de poderem desejar e amar como qualquer outra pessoa.

Essa coragem causou uma mudança no mundo, assim como o telefone, os carros, a internet. Assim como essas novas tecnologias, essa mudança permite que mais pessoas alcancem o que desejam. Que possam estar mais perto de quem amam, que possam aproveitar melhor esses momentos. Que aproveitem melhor sua liberdade de buscar sua própria alegria e felicidade.

É fácil gostar da mudança que torna a sua própria vida mais fácil. Já é mais difícil entender a mudança que torna a vida dos outros mais fácil, mesmo sem prejuízo para a sua. Pense nos velhinhos, que não entendem como a internet poderia melhorar suas vidas, e criticam os jovens por usá-la, saudosos do tempo onde pra falar com alguém precisavam esperar dias para que cartas fossem e voltassem. Ao se usar como parâmetro para a humanidade, acham que tudo o que não lhes convém pessoalmente certamente há de fazer mal para todo o mundo. Ao fazer isso, ignoram que as pessoas são todas diferentes, que gostam de coisas diferentes, que tem sonhos diferentes, e que é essa diferença toda que faz o mundo girar, a sociedade funcionar. Uma sociedade precisa de todos nós, com nossas vontades distintas. Uma sociedade só de agricultores, outra só de engenheiros, ou só de cabeleireiros, nenhuma dessas funcionaria. Dependemos da diferença para viver.

Ao contrário do que os antigos gregos poderiam pensar, cada juventude tem a oportunidade de aprender e refletir mais, desenvolver mais. A ciência vem avançando, e doenças que nos matavam a 10 anos agora são controladas. A própria tecnologia avança. E assim como abraçamos os remédios que nos salvam, a tecnologia que nos conecta, também podemos ficar felizes porque finalmente mais pessoas podem ter o privilégio de amar sem ter que se esconder.

Sobre o Autor

Francisco Hertel Maiochi é psicólogo e Mestre em Sexologia no Espaço Ciclos

CRP 12-10098