Mitos sobre camisinhas e ISTs

Por Francisco Maiochi | March 25, 2019

Tem muita coisa que pensamos saber, mas não sabemos

Nesses anos como psicólogo, e agora como sexólogo, fui convidado diversas vezes a palestrar para diversos públicos, especialmente adolescentes, sobre educação sexual. As pautas mais solicitadas geralmente tem a ver com a questão de prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e o planejamento familiar (um nome bonito para falar de todas os métodos utilizados para prevenir uma gravidez indesejada).

Especialmente para quem tem filhos, existe uma grande preocupação para que não engravidem na adolescência, e não contraiam nenhuma doença que possa impactar na sua vida futura, uma preocupação que é bastante admirável, que penso ser muito boa de se ter. Infelizmente, é no como que muitas vezes encontramos algumas divergências. Muitas vezes o que as pessoas pensam que é seguro não é, e vice-versa. Aprendemos e internalizamos como verdade muitos mitos, e muitas vezes arriscamos nossa saúde na esperança de manter essas crenças intactas, então quero aproveitar a coluna desta semana para abordar alguns desses mitos, e trazer a tona alguns fatos que as vezes parecem inconvenientes.

Mito 1

Falar de contraceptivos, fornecer contraceptivos, incentiva o adolescente ao sexo. Muitos pais pensam dessa forma, mas não é verdade. De fato, adolescentes que tem uma educação sexual compreensiva, que abordem todas essas questões de forma didática, clara e sem julgamentos, tendem a iniciar sua vidas sexuais mais tarde. Convenhamos que nenhum adolescente precisa de estímulo para ter desejo e sexualidade. É um fato da puberdade que o desejo sexual surge, e para muitas pessoas é quando atinge o seu pico de intensidade. Adolescentes vão transar, mais cedo ou mais tarde, mas em geral, vão. O que é essencial é conhecimento para que saibam como lidar com esta sexualidade que surge. Falta de informação leva a decisões ruins. Falta de acesso à métodos faz com que decisões impulsivas tenham consequências mais graves do que poderiam ser (impulsividade é outra coisa pela qual adolescentes são famosos por fazer, afinal, é o período da vida onde aprendemos a fazer decisões, e nenhum aprendizado ocorre sem erros).

Mito 2

Só engravida quem quer. Outra inverdade. Existem sim métodos contraceptivos, mas todos precisam de aprendizado para serem utilizados corretamente, e quando utilizados incorretamente as taxas de proteção caem muito. Saber utilizar os métodos corretamente, e aprender a ter constância no seu uso é um aprendizado, que requer educação e experiência. Existem métodos de longa duração, que requerem menos disciplina e regularidade, como os DIUs e o Implante, que requerem consultas com médicos. Praticamente nenhum adolescente vai marcar uma consulta com um médico, seja ginecologista ou urologista, escondido dos pais. Outros vão ter medo de ter métodos a mão, como camisinhas ou pílulas, com medo de serem descobertos e serem punidos. Sem a ajuda dos pais, fica muito difícil realmente para que os adolescentes tenham chance de aprenderem a ter essa responsabilidade.

Mito 3

Quem ama não usa camisinha. Muita gente acredita que uma vez que exista um sentimento, e um compromisso monogâmico, as camisinhas devem ser aposentadas para o casal. Essa crença infelizmente leva ao cenário da escalada de infecções sexualmente transmissíveis entre pessoas casadas. Teoricamente numa relação monogâmica só haveria um parceiro, mas sabemos que traições existem, e são de certa forma comuns. Sempre pensamos que seremos aquela exceção, que é algo que acontece com os outros. Muitos aprendem com isso que o usar camisinha é um atestado de desconfiança, e quem confia, confia sempre e para tudo. Mas mesmo quem salta de paraquedas confiando sua vida naquele dispositivo, ainda vai com um reserva. Além disso, usar o preservativo pode ser entendido como cuidado, uma ação para garantir que um erro nosso ou deles não machuque a pessoa que amamos por muito, muito tempo. O importante aqui não é o quanto a pessoa ama, a intensidade das promessas ou sentimentos. Sabemos que a despeito disso, todo mundo está sujeito a cometer erros. O importante seria outra pergunta: Se traísse, essa pessoa me contaria imediatamente, antes de me expor a algum risco, ou cruzaria os dedos esperando não ter pego nada e ficaria calada?

Ainda tem muito a se falar desses tópicos, que certamente surgirão no futuro, então fiquem atentos para as próximas colunas!

Sobre o Autor

Francisco Hertel Maiochi é psicólogo e Mestre em Sexologia no Espaço Ciclos

CRP 12-10098